O Programa de Pós-Graduação em História - Mestrado Acadêmico da UESC tem sua Área de Concentração em "História do Atlântico e da Diáspora Africana", tal delimitação traz consigo alguns significados e conceitos que remetem a uma amplitude temática, geográfica e cronológica. Esses significados e conceitos têm um impacto direto sobre a perspectiva pela qual se analisam os fenômenos e processos sociais, sejam eles em suas dimensões sincrônicas ou diacrônicas. Assim sendo, é necessário contextualizar em que âmbito teórico e metodológico se inscreve a proposta do Programa de Pós-Graduação em História: Atlântico e Diáspora Africana.
A primeira e mais relevante delimitação é quanto aos marcos cronológicos, uma vez que a Área de Concentração está situada a partir da "abertura do Mundo Atlântico", neste sentido, as pesquisas acolhidas no programa devem datar do século XVI em diante. Trata-se, portanto, de Programa voltados sobretudo à História Moderna e Contemporânea em articulações com s movimentos históricos locais, regionais e globais. Quanto aos marcos cronológicos finais das pesquisas, o Programa acolhe propostas que dialoguem, inclusive com a História do Tempo Presente, dando especial atenção para que temas muito atuais recebam um tratamento metodológico, que ainda que em diálogo com a Educação, Sociologia, Política, Antropologia, ao final da pesquisa o produto - a dissertação - esteja condizente com o que se entende como um trabalho do campo da História.
A compreensão do que seja Atlântico, pelo PPGHH-UESC, considera os pioneiros trabalhos, escritos nas décadas de 1950 e 1960, ainda com o mesmo método e o mesmo enfoque que Fernand Braudel utilizara em “O Mediterrâneo e o Mundo mediterrâneo no Tempo de Felipe II”, o abordaram de uma perspectiva eurocêntrica. Pierre Chaunu, por exemplo, em Séville et l’Atlantique (1504-1650), afirmou abertamente a prevalência europeia sobre as demais regiões e caracterizou os europeus como os seus únicos atores na construção do que chamou Atlântico humanizado. Peter Linebaugh propôs outra visão, o Atlântico formaria uma comunidade composta pela Europa, África e Américas, que se articulavam e cooperavam entre si, tendo como principal elo o navio; ou, como alegoricamente sugeriu, o navio seria o polegar que toca e dá funcionalidade à mão, isto é, ao espaço atlântico.
Paul Gilroy, em “O Atlântico Negro”, evocou também a imagem do navio como um “sistema vivo, multicultural e micropolítico em movimento”, ligando os continentes banhados pelo Atlântico, onde projetos, ideias, ativistas e artefatos políticos e culturais (panfletos, livros e registros fotográficos) circulam. Entretanto, o foco das análises de Gilroy está em um Atlântico visto pelo prisma dos africanos e afrodescendentes, não de uma perspectiva afrocêntrica, mas ressaltando as características híbridas, sincréticas e crioulas que esse movimento provocou nas duas margens do Atlântico.
David Armitage, por outro lado, em “Tres Conceptos de História Atlántica”, chamou atenção a respeito de um Atlântico branco, com raízes na guerra fia, de um Atlântico negro com raízes no período posterior à Guerra de Secessão dos Estados Unidos e de um Atlântico vermelho com raízes no cosmopolitismo marxista. Porém, ele não desconsiderou a proposição de uma história do atlântico multicolor e não exclusivamente anglófona, mas com dimensões de uma história transnacional do mundo atlântico; de uma história nacional ou regional em contexto atlântico.
Assim, o Atlântico, além de sua conotação geográfica mais imediata – o oceano que separa a Europa e a África das Américas – tem sido pensado e proposto, a partir de diversos referenciais metodológicos e historiográficos, como um espaço de contato e circulação de pessoas procedentes dessas três porções de terra e, com elas, suas ideias, memórias, valores, tradições, línguas, literaturas, políticas, economias, enfim, tudo que o ser humano carrega e que lhe confere a característica de um ente que produz cultura. E é a partir dessa perspectiva que o termo “Atlântico” é empregado no âmbito da Área da Linha de pesquisa Experiências Atlânticas: Economia, Política e Sociedade.
No âmbito do PPGH-UESC a Diáspora Africana é de tal forma imbricada com os Estudos do Atlântico, tal como nos termos das discussões apresentadas por Linebaugh, Gilroy e Armitage, que são consideradas indissociáveis. Estudar qualquer aspecto da Diáspora Africana é tratar de uma experiência atlântica. Com isso, não se quer circunscrever a ideia de diáspora no Atlântico apenas ao movimento gerado pela movimentação de pessoas e ideias direta ou indiretamente vinculadas ao tráfico de escravos. A diáspora atlântica tem proporções muito maiores. Em verdade, a diáspora africana é um aspecto dentro desse movimento maior. Recorre-se mais uma vez Linebaugh para ilustrar a linha de raciocínio quando ele afirma que a diáspora está dividida entre aquelas pessoas que sofreram algum tipo de exílio político e um maior contingente de pessoas que foram transformados em trabalhadores com obrigação de serviço por tempo determinado ou como criminosos deportados.
Nesses termos, os projetos, ideias, ativistas e artefatos políticos e culturais em movimento entre as margens do Atlântico são incontáveis. Assim, desse universo, recortou-se aqueles que se vinculam diretamente aos movimentos entre o Continente Africano e as Américas, entendendo que as “outras diásporas” poderão ser abordadas a partir de estudos mais amplos das relações atlânticas.
O destaque dado à diáspora africana justifica-se por questões políticas, demográficas e econômicas que impuseram aos africanos uma ativa participação na construção do novo mundo atlântico após 1450. Os africanos escravizados e seus descendentes – os afro-americanos – com sua relevante contribuição econômica e cultural foram fundamentais na formação do mundo atlântico. Como sugeriu John Thornton, em “A África e os africanos na formação do mundo atlântico, 1400-. 1800", esse impacto cultural foi produto de sua integração nesse novo mundo, onde eles ocuparam posições geográficas importantes nas áreas de maior transformação. O Brasil foi uma dessas áreas e hoje concentra a maior população negra fora do continente africano. Desse modo, para se compreender corretamente a História do Brasil e das Américas, de um modo geral, é imprescindível analisá-las levando em consideração o “sistema vivo, multicultural e micropolítico” posto em movimento continuamente por esse contingente populacional.
Assim, é desse ponto de vista que se entende e se emprega a expressão “Diáspora Africana” no âmbito da Linhas de pesquisa Experiência da Diáspora Africana: Identidade, Cultura e Sociedade